28 de junho no Memorial do Rio Grande do Sul: Debate com Deoclides de Paula – Liderança Kaingang da comunidade de Votouro/Kandóia

O Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais (NIT/PPGAS-UFRGS) e Museu Antropológico do Rio Grande do Sul convidam para o I Ciclo de Encontros do Observatório Social das Populações Indígenas da Região Sul.

O debate será realizado por Deoclides de Paula, liderança Kaingang da comunidade Votouro – Kandóia, membro do CEPI (Conselho Estadual dos Povos Indígenas) e do CONDISI (Conselho Distrital de Saúde Indígena). Deoclides também foi membro tutelar do CNPI (Conselho Nacional de Políticas Indigenistas) de 2007 a 2013.

O evento ocorrerá no dia 28/06 às 17h, no auditório do 1° andar no Memorial do Rio Grande do Sul.

cartaz com logo RS

A resistência Kaingang presente no Acampamento Terra Livre em Brasília.

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Alguns participantes do projeto “Resistência Kaingang” viajaram até Brasília para acompanhar as comunidades Kaingang no Acampamento Terra Livre.

O ATL celebrava 15 anos nessa edição que reuniu mais de 3500 indígenas. Os porta-vozes das diferentes comunidades indo a “pintar Brasília de urucum e jenipapo” como apontou Sonia Guajajara deixaram um recado bem claro para o governo Bolsonaro: suas reformas etnocídas não passaram!

As pautas se centraram principalmente no retorno da FUNAI para o Ministério da Justiça e da devolução das suas competências de demarcar as terras e da revogação do Parecer 001/2017 da AGU que institui o “Marco Temporal”, que dizer que todas as TI que foram retomadas após 1988 não poderiam ser legalmente demarcadas. As delegações indígenas se invitaram no Senado e na Câmara dos Deputados onde insistiram com firmeza nas suas demandas! Após essas reuniões, o presidente da Câmara Rodrigo Maia se comprometeu em trabalhar para desaprovar a Medida Provisória 870 que deverá ser analisada nas próximas semanas pelo Congresso.

Aconteceu também o I Encontro das Mulheres Indígenas, foi decidido que se realizará uma marcha das mulheres indígenas em agosto desse ano em Brasília com o tema decidido na assembleia: “Território: Nosso corpo, nosso espírito.”

Deixamos aqui o link do documento final do XV Acampamento Terra Livre para maiores informações.

Em relação aos Kaingang, as lideranças Luis Salvador Saci (TI Kanhgág ag Goj) e Isaías da Rosa (TI Goj Venh Xú) realizaram uma reunião com o presidente da FUNAI exigindo a demarcação das terras dos acampados no Rio Grande do Sul. Após um breve encontro, se reuniram com o secretário dos assuntos fundiários que apontou que a verba das indemnizações para os agricultores assim como todo o poder de atuação da FUNAI no que tange a assuntos fundiários foi entregue ao Ministério da Agricultura (MAPA). Em relação à TI Votouro/Kandóia nos foi indicado que o processo, por causa do Parecer 001/2017, retornou para FUNAI para revisão. A entidade se comprometeu com as lideranças a revisar o processo ainda esse ano.

No mais, sentiu-se no coração do ATL muita força, muita resistência e determinação de parte de todos os participantes!

*As fotos foram tomadas por Clémentine.

O ensaio fotografico: Luta e resistência Kaingang exposto no Memorial do Rio Grande do Sul

O ensaio fotografico: Luta e resistência Kaingang estará exposto no Memorial do Rio Grande do Sul até finais de maio durante o “Abril Indígena” organizado pelo Museu Antropológico do Rio Grande do Sul.

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Junto a outras exposições, nosso ensaio retrata a expressa a relação que os Kaingang que moram em Acampamentos de Retomadas[1] no Alto Uruguai (Rio Grande do Sul, Brasil) desenvolvem com um território cada vez mais devastado pelos avanços do agronegócio e uma perseguição cada vez mais aguda tanto por parte de alguns setores do Estado brasileiro quanto por parte dos fazendeiros locais. A resistência das mulheres e homens Kaingang nesses Acampamentos de Retomadas se manifesta com a força da relação que eles mantêm com os poucos vënh-kagta, “remédios do mato” que sobrevivem nos desertos criados pela agricultura intensiva. Tendo como pano de fundo a ditadura militar e a expansão das fronteiras agrícolas no país, é desde uma perspectiva Kaingang do território que esse ensaio fotográfico relata a história do sul do Brasil. Essa história se manifesta por um lado na memória ancestral de cada erva, casca, folha colhida e por outro na destruição, expressada pela hegemonia de uma paisagem monotemática. A luta nas retomadas dos territórios Kaingang é entendida como uma luta na procura de (re)criação de relações com os seres da natureza, relações que rompem com os modelos de relação com a terra, baseados na produtividade e na concepção da terra enquanto objeto, historicamente impostos nos Postos e nas Terras Indígenas. As araucárias nascendo expressam a relação entre a ancestralidade Kaingang, os processos históricos e coloniais sofridos por eles e um futuro de esperança baseado na procura de uma autonomia política, espiritual e territorial.

Todas as fotos são de Billy Valdes

Texto: Clémentine Maréchal

Projeto Resistência Kaingang: Memória, território e perseguição. Uma produção do Coletivo Catarse.

[1] Os Acampamentos de Retomadas são territórios recuperados de forma autônoma pelos Kaingang nas últimas décadas. São chamados de Acampamentos porque, apesar dos laudos antropológicos terem sido realizados e aprovados pela FUNAI, o Estado brasileiro ainda não concluiu a demarcação e homologação da terra e assim a retirada dos fazendeiros ou pequenos agricultores que atualmente moram nessas terras. De esta maneira, nos Acampamentos de Retomadas, os Kaingang são recluídos em espaços de 2 a 4 hectares no máximo.

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Retorno a Nonoai: Encontro com o kujà Jorge Kagnãg Garcia

No nosso retorno em direção a Porto Alegre, paramos na Terra Indígena Nonoai onde finalmente nos encontramos com o kujà (liderança espiritual Kaingang) Jorge Kagnãg Garcia. O encontro se deu na roda da fogueira, sempre acesa, o kujà nos relatou várias histórias relacionadas aos processos civilizatórios que aconteceram na região de Nonoai a partir do século XIX que ele resumiu simbolicamente como “o amansamento dos índios”. O kujà associou esse processo à chegada de produtos industrializados (principalmente açúcar e cachaça) e ao início da exploração do trabalho dos Kaingang.

Na conversa, ele nos relatou a retomada de Nonoai em 1978 quando os posseiros foram expulsos das terras dos Kaingang que tinham se organizado juntando famílias de muitas comunidades diferentes. Com um sorriso no rosto, nos comentou também da atuação de Alcindo Peni Nascimento, o pai de Iracema, enquanto cacique responsável e, respeitoso entregado ao seu povo.

Mas, o tema que mais torna alegre Kagnãg, são os “bichinhos” que habitam as poucas florestas que resistem à expansão capitalista da região. Ele contou para nós que cada animal tem seu “mestre” que assume, no seio da comunidade de animais, o mesmo papel que o kujà. Somente os kujà conseguem se comunicar com essas entidades mestras, por isso, Jorge Garcia é detentor de um conhecimento incrivelmente profundo das relações entre os seres da floresta e os Kaingang.

Como nosso fotografo motorista estava passando muito mal, ele tinha comido um Xis bagunça que lhe bagunçou o estomago, decidimos retornar para Nonoai e passar a noite num hotel onde selecionamos as fotos que comporão o nosso primeiro ensaio fotográfico.

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Terra Indígena Mangueirinha: 30 anos após a Retomada

Saindo da comunidade de Kanghág ag Goj, atravessamos o rio Uruguai em baixo de uma agradável chuvinha. Passamos rapidamente por Santa Catarina até chegarmos no estado do Paraná. Iracema nos guiou até a T.I Mangueirinha, mais precisamente no lugar antigamente chamado de Gleba B, ou “fazenda velha”, espaço que seu pai e seus tios ajudaram a retomar a meados dos anos 80 e que até então estava nas mãos da empresa madeireira Slavieiro Ltda.
Após 30 anos de ausência, Iracema pisou novamente na terra retomada e encontrou-se com seus parentes que ainda ficaram morando aí. Maria Helena Rodriguez é prima-irmã de Iracema, foi ela quem nos recebeu quando chegamos na Terra Indígena. Ela e seu filho nos hospedaram durante nossa estadia em Mangueirinha.
Durante os 4 dias que ficamos lá, ela, Iracema e seu sobrinho Dóka (ponta de flecha) nos fizeram percorrer o território recuperado por sua família, apontando também aos lugares onde estão enterrados os umbigos (as placentas) dos seus filhos Karindé e Katumé. Primeiramente conhecemos o primeiro lugar onde Alcindo Peni, o pai de Iracema se assentou e fez sua primeira roça rodeada então pela presença de várias araucárias que ele se empenhava a proteger.

 


Os reencontros de Iracema com os parentes “gaúchos” que ficaram na terra recuperada foi forte em emoções, notadamente quando ela conversou com seu sobrinho Dóka que lhe contou seu projeto de etno-turismo como estratégia para proteger os pinheiros da Terra Indígena. Quando chegou na T.I, Dóka chegou nos braços da sua mãe, pois tinha 6 meses. Ele lembra porém, muito bem da sua infância do lado da sua tia e dos seus “avós”: Alcindo, Floriano e Eufrásio. Lembra de ter subido nos pinheiros com Alcindo, de ter aprendido das plantas e ervas do mato, dos cantos dos pássaros e do respeito pelas marcas (metades Kaingang) que Alcindo lhe ensinou.
Quem nos contou em detalhes a história da retomada da “fazenda velha” foi José Carlos, chamado de Zéca. Filho do antigo cacique “Paraguai” provavelmente assassinado por jagunços da região no início dos anos 80, ele lembrou também a importante atuação de Ângelo Kretã nas retomadas de terras Kaingang desde finais dos anos 70. Ângelo foi quem tinha viajado a Nonoai para apoiar a retomada de 78, ali conheceu Alcindo e outras lideranças que logo, ele chamou para retomar Mangueirinha. Também impulsionou as retomadas de Rio das Cobras (PR) e Xanxerê (SC). Zéca passou a tarde nos contando a história das retomadas de terras Kaingang da região sul do país, lamentando a falta de lideranças irredutíveis nas convicções que nem Ângelo e Alcindo.

 


No último dia da nossa estadia em Mangueirinha, tivemos a grande sorte de sermos guiados por Dóka no interior da reserva florestal de Mangueirinha onde ele pretende realizar seu projeto que visa a proteção de araucárias milenares que ali se encontram. Dóka conhece as plantas e suas propriedades com muita precisão. Nos mostrou remédios como “a dipirona dos Kaingang”, remédio de erva para ficarmos sempre jovem, remédios para engravidar assim como um monte de comida do mato que há um tempo atrás faziam parte integral do cardápio Kaingang…

 


Dóka nos levou também até uma araucária gigante, uma árvore sagrada que nos deixou sem voz. Ali, Iracema iniciou Dóka aos conhecimentos dos kujà (xamãs) realizando um ritual ao redor da araucária. Segundo ela, o ritual teve dois objetivos. O primeiro: iniciar Dóka e incentivá-lo a seguir o caminho das aprendizagens para se tornar um kujà e o segundo, proteger a araucária de uma possível destruição. Iracema pegou um remédio na mão e “benzeu” o Dóka que logo após, passou a atuar junto com ela para “benzer” a árvore utilizando cantos em Kaingang. Do lado da árvore, encontra-se uma pequena cascata onde tomamos um pouco de água para nos refrescar. Dóka nos explicou que o recorrido que a gente fez com ele está inserido como ideia para seu projeto de “etno e ecoturismo” a ser desenvolvido na Terra Indígena com o objetivo de proteger a floresta dos invasores e madeireiros que cortam e logo vendem os pinheiros.

 


Após uma trilha cansativa mas muito enriquecedora, voltamos à cidade onde passamos nossa última noite no Paraná em companhia do último filho de Maria Helena, que, para fortalecer o seu povo, decidiu estudar e tornar-se enfermeiro. Hoje, ele trabalha na cidade de Mangueirinha onde reside com sua companheira e seus dois filhos.
No dia seguinte, pegamos a estrada direção Nonoai… onde finalmente nos encontramos com o kujà mais conhecido dos Kaingang, Jorge Kagnãg Garcia…

O projeto Resistência Kaingang: Memória, Território e Perseguição esteve na França

 

Estivemos realizando dois encontros no oeste da França (na Bretanha) nos dias 8 e 17 de janeiro. O primeiro encontro aconteceu na Médiathèque “Le Grand Logis” na cidade de Bruz, com o apoio do município e a segunda na Médiathèque “Jean-Michel Bollé”.

A imprensa local também divulgou o encontro no jornal impresso, na internet e nas redes sociais. Estiveram presentes ao redor de umas 60 pessoas no primeiro encontro e ao redor de 30 no segundo, ao parecer, curiosas para conhecer um pouco mais da situação dos povos indígenas no Sul do Brasil e especificamente dos Kaingang. Após uma breve apresentação da situação histórica na qual se inscreve o povo Kaingang, abordamos os projetos de retomadas de terra de finais dos anos 70 assim como os impactos da nova Constituição Federal de 1988 para logo falar um pouco mais especificamente da situação atual da comunidade de Votouro/Kandóia que se encontra perseguida pela justiça e cercada pelos fazendeiros da região.  Para finalizar, apresentamos o projeto dos filmes e ressaltamos as significativas e etnocidas mudanças que o governo Bolsonaro está desenvolvendo em relação aos povos indígenas. As trocas foram bastante enriquecedoras já que foram elaborados paralelos históricos com o etnocidio que aconteceu na Bretanha mas também com a situação colonial atual na Guiana Francesa notadamente com o projeto de extração de ouro através do projeto “La Montagne d´Or”.

 

No dia seguinte, às 8 da manhã intervimos também no colégio “Saint Sauveur” de Redon, acordando os alunos…

Estivemos também participando de um encontro em Manresa, na Catalunya no local “La Regadora” onde o/as companheira/os nos receberam com muita atenção!

As fotos de Billy Valdez foram expostas nos dois encontros e receberam um monte de elogios por parte do público.

Agradecemos a todos por sua participação, colaboração e atenção.

Até breve!

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/resistencia-kaingang-memoria-territorio-e-perseguicao

 

Dia 6/7: Kanhgág Ag Goj-Vicente Dutra

Chegamos à Terra Indígena Kanhgág ag Goj de tardezinha, fomos recebidos com a festa de aniversário da irmã de Luís Salvador Saci, cacique da comunidade. A comunidade de Kanhgág ag Goj fica no município de Vicente Dutra no extremo norte do estado de Rio Grande do Sul. Em 2005, os Kaingang retomaram o balneário municipal de Vicente Dutra. O laudo de demarcação de terras foi realizado, aprovado pela FUNAI e pelo Ministério de Justiça. Para recuperar a totalidade das suas terras, os Kaingang devem esperar o governo indemnizar e relocalizar os agricultores que ainda moram no território Kaingang. Esse território não foi conseguido sem luta nem perseguição, inclusive Saci lembra ter sido ameaçado de morte, e interpelado muitas vezes pelas forças da ordem. Em julho de 2016, cansados de esperar o governo cumprir suas promessas, os Kaingang da comunidade retomaram 8 hectares de terra onde plantaram logo depois 40000 pés de Araucárias, à arvore ancestral e sagrada dos Kaingang.

“Meu sonho é que sejamos autônomos, que não dependamos mais de governo nenhum…”

Passeamos pela comunidade acompanhados por algumas lideranças que nos mostraram o manejo florestal que a eles vêm desenvolvendo no território: açougue com peixe para pescar, inúmeras árvores frutíferas, plantações pequenas de milhos e feijão, hortas comunitárias etc. O cacique vê as terras retomadas como possibilidades de (re)criação da vida social Kaingang, em harmonia com a floresta e sem depender dos governos.

De noite, nos falaram bastante de Augusto Opë da Silva, um grande lutador Kaingang, o “mestre” de Saci. Augusto foi quem lhe ensinou a lutar e segue presente em cada passo da comunidade que o lembra com profunda admiração e muito carinho.

O dia seguinte foi dedicado à entrevista aprofundada com várias lideranças, o cacique Saci, o ex cacique Roberto que ressaltou que foram os processos de territorialização e de colonização que lhes encerraram em Terras Indígenas delimitadas, e que antigamente, na época da “liberdade”, o território não tinha “limites”. Fomos visitar também o pai de Saci com quem Iracema conversou longamente, lembrando a época na qual ele e o Alcindo, o pai de Iracema conviviam em Nonoai.

Após essas entrevistas, fomos caminhar no território que foi retomado em julho de 2016 até a cima do morro onde os Kaingang colocaram a placa: “Terra Indígena” e onde plantaram os pés de Araucária.  Da cima do morro, Saci nos mostrou o território ancestral Kaingang, planejando desde já como manejá-lo uma vez que ele esteja recuperado…

 

 

Precisamos da sua ajuda!

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Dia 5/6 Barragem do Rio Passo Fundo até Nonoai

Na tarde saímos de Votouro/Kandóia em direção a Nonoai. Paramos no caminho para contemplar o rio Passo Fundo cujo fluxo foi cortado por uma barragem construída pela empresa Monjoinhos. Iracema lembra que de criança passava por aqui a pé ou de cavalo nas costas do seu tio. Paravam na estrada para pescar e levar os peixes ao encontro dos seus parentes que viviam no Votouro. Hoje, segundo a kujà (xamã), o rio está preso e sujo, está morrendo por causa do dito desenvolvimento. O desenvolvimento também comeu os animais e a vida silvestre que crescia na beira do rio, hoje ficam vivos nas lembranças dos Kaingang.

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Barragem do Rio Passo Fundo

Ao chegar a Nonoai, fomos à procura da madrinha de Iracema, Carolina de apelido “Caruca”, uma mulher curandeira que chegou na Terra Indígena Nonoai com uns 20 anos onde ela cuidou e curou, usando remédios à base de plantas, muitos parentes Kaingang. Porém, ao chegar à sua casa, ficamos sabendo que ela tinha sido internada no hospital de Nonoai. Passamos então a noite num hotel, e fomos visitar, nos horários restritos de visita a tia Carolina. Por sorte, ela só tinha um resfriado, marcamos um possível encontro na nossa volta do Paraná.

Na estrada, realizamos o programa semanal de rádio Heavy Hour focado no nosso projeto Resistência Kaingang: Memória, Território e Perseguição. Podem escutá-lo online aqui

No dia seguinte, antes de sair na estrada em direção à Terra Indígena Kanghág ag Goj, paramos na praça central da cidade de Nonoai. Essa praça, para Iracema e para muitos Kaingang é um lugar sagrado, pois ali se reuniam as lideranças Kaingang vindo de vários estados tanto para discutir política quanto para fazerem festas rituais. Na praça, reinam árvores centenárias que ressaltam a pertença Kaingang a aquele lugar. Iracema lembra das casas de capim onde seus avós ficavam preparando os rituais e os casamentos.

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Iracema abraçando a árvore onde seu pai se reunia antigamente. Nonoai, 2014.

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Dias 4 e 5: Terra Kaingang Votouro/Kandóia

Chegamos na Terra Kaingang de Votouro/Kandóia um pouco antes do meio dia. A aldeia fica a uns 2 km da pequena cidade de Faxinalzinho. Aqui, os Kaingang estão aguardando há mais de 15 anos à demarcação das suas terras. A FUNAI já aprovou o laudo antropológico realizado no início dos anos 2000, porém o ministério da justiça ainda não declara a terra como Terra Indígena. Na volta da aldeia, estende-se um vasto deserto verde, há tempo que as monoculturas tomaram conta da paisagem. Os fazendeiros lá seguem destruindo cada rincão de floresta, não somente por ganancia mas também por maldade, para apagar qualquer marca material e/ou visível da presença Kaingang no lugar.

O cacique da comunidade Deoclides de Paula nos concedeu uma entrevista na qual ele ressalta a preocupação com o contexto atual brasileiro mas, sobretudo, determinação do seu povo a seguir lutando para que seus direitos sejam respeitados.

Após, Shen, sua esposa, junto com sua mãe Malvina e muitos outros parentes nos levaram para fazer o reconhecimento da aldeia, dos dois hectares onde ficam morando, aguardando pela demarcação das suas terras. Segundo Shen, o amontoamento das casas não reflete o modo tradicional Kaingang de habitar o espaço, o que eles gostariam, seria de morar cada casa distante de pelo menos uns 300 metros da outra.

As mulheres nos ensinaram os rengro, a “salada do mato” que ainda cresce no território Kaingang. As crianças seguem tomando banho nos rios onde o peixe já morreu, sufocado pelos agrotóxicos.  Pedro, o filho da defunta Maria Kensho Kandóia nos mostrou antigo lugar onde sua mãe nasceu, lugar hoje invadido e devastado por grandes latifúndios.

Passeamos pelo rio no qual antigamente os Kaingang podiam pescar, beber e tomar banho, esse rio hoje é poluído pelos resíduos tóxicos da agricultura intensiva, contaminando a água. Porém é no meio dessa paisagem que reflete a morte que os Kaingang sobrevivem, conseguindo ainda encontrar alguns dos seus remédios venh-kagta necessários a reprodução da sua vida social.

No dia seguinte, fomos até Ore xá (Barro Preto), a uns quilômetros da sede do acampamento, onde os Kaingang vão buscar as taquaras para fazer seu artesanato e o barro preto que lhes serve tanto para confeccionar suas panelas quanto para se curar. Há umas semanas atrás, uma parte desse lugar foi destruído pelos agricultores que “limparam” com suas maquinas e seu veneno os últimos redutos de vida silvestre desse lugar ancestral Kaingang.

Esse pequeno vídeo (teaser) nos mostra a importância do Ore Xá para os Kaingang e a necessidade de nos mobilizar para tornar visível tanto a importância desses espaços para a reprodução da vida comunitária e social dos Kaingang quanto da sua destruição despiedada por parte dos fazendeiros da região.

No final da nossa estadia, Gustavo e Billy plantaram um pé de erva mate nativa na horta do cacique Deoclides de Paula, como se fosse um sinal à espera da nossa próxima chegada, em breve, já que os financiamentos para a realização de uma carijada Kaingang foram conseguidos….

Fotos: Billy Valdes

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