Quem são os Kaingang

Os Kaingang são um povo amerindio do sul do Brasil, pertencem ao tronco linguistico “Macro-jê”. Povo de origem caçador-coletor-pescador, semi-nomade, os Kaingang viviam nas florestas de araucária no sul do Brasil.

Os primeiros contatos com os colonizadores começaram no fim do século XVIII, porém é sobretudo a partir da secunda metade do século XIX que os impactos da colonização se fazem sentir de maneira mais profunda no seio da sociedade Kaingang que se vê transformada mais sistematicamente, notadamente com a militarização dos homens Kaingang. Nessa época, foram forçados a se juntar aos aldeamentos criados por jesuítas, administradores e militares com três objetivos: liberar as terras férteis para a chegada de colonos europeus, “pacificar” as relações entre índios e brancos, fazer trabalhar os Kaingang nas lavouras.

Em 1910, uma nova instituição nacional se cria para « cuidar » dos ameríndios. Inspirada pela filosofia positivista, o Serviço de Proteção aos Índios nasce e se transforma rapidamente em uma instituição total cujo projeto é claro: transformar os indígenas em trabalhadores nacionais. A violência física e simbólica com a qual são tratados os ameríndios do Brasil nessa época é terrível: tortura, cadeia, trabalhos forçados, estupros, roubos de crianças, perseguição das lideranças políticas e políticas-espirituais, etc.

Essa terrível época do « projeto civilizatório » deixou numerosas feridas nas organizações sociais, econômicas, politicas, nas práticas espirituais assim como no plano intersubjetivo. Porém, sua cosmologia, sua maneira de viver e de (re)sentir o mundo segue se atualizando sem parar às novas conjunturas.

Onde vivem os Kaingang ?

Os Kaingang vivem nas Terras Indígenas demarcadas e reconhecidas legalmente pelo Estado Brasileiro desde 1988; nas terras em conflitos com os grandes fazendeiros, chamadas hoje de Acampamentos de Retomada assim como nas periferias urbanas.

Terras Indigenas Kaingang em 2016

Algumas palavras sobra a cosmologia Kaingang

Kamé et Kanheru-Kré

Como outros grupos da família linguística « Macro-jê”, os Kaingang são considerados como sociedades sóciocentricas que reconhecem princípios sóciocosmológicos baseados na dualidade e na complementariedade e que se apresentam sob a forma de um sistema de metades.

As duas metades da sociedade chamam-se Kamé e Kanheru-Kré em referência ao mito de origem Kaingang. A pertença à uma ou outra das duas metades se transmite pelo pai. As pessoas associadas a uma metade não podem, idealmente, se casar com uma pessoa associada à mesma metade. Da mesma maneira, os trabalhos ligados à economia cotidiana e à política devem ser realizados, idealmente, por duas pessoas que pertencem a metades diferentes. A pessoa da outra metade é chamada de iambré. Essa relação busca antes de tudo a complementariedade através do fortalecimento provocado pela união de potencialidades diferentes.

Os seres Kamé são ligados ao sol, considerados como impulsivos, fortes e com muita iniciativa enquanto os seres Kanheru-kré associados à lua, são considerados como muito mais tranquilos, reflexivos, pacientes e menos combativos. A relação entre os seres (humanos, não humanos e extra-humanos) que pertencem a metades diferentes é o pilar da cosmologia e da vida social dos Kaingang. Essas metades são associadas a marcas tribais que se expressam notadamente com as pinturas corporais: o círculo sendo associado a Kanheru-kré e o traço a Kamé.

Cosmologia

Os kujà: lideranças políticas-spirituais Kaingang

Os kujà são lideranças espirituais Kaingang. Seu saber é diretamente conectado com a floresta. Grandes conhecedores das plantas, raízes e ervas, curam as doenças que atingem os membros das suas comunidades. O poder dos kujà é sobretudo associado à sua capacidade para sonhar: quer dizer, a faculdade de penetrar e atuar nos mundos invisíveis habitados por um ou vários animais guias chamados de iangré e com os quais desenvolvem uma intensa relação que termina-se somente após a morte do kujà. Antes de morrer, o kujà deverá repassar seus saberes a uma pessoa que terá ele escolhido e formado. Os kujà possuem também o dom de adivinhar o futuro através de banhos de fumaça e ervas.

É assim que historicamente, os grandes chefes Kaingang, como o chefe Nonoai ou o chefe Votouro possuíam um poder ligado ao domínio político: estratégia, diplomacia, guerra etc. assim como um poder espiritual ligado à sua relação intensa com os seres da floresta.

 

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