Resistência Kaingang: Memória, Território e Perseguição

Propomos nos aproximar das retomadas de terra Kaingang, antigas e atuais, no sul do Brasil. Esse projeto nasce da iniciativa dos próprios Kaingang, vendo nele a possibilidade de relatar sua história, antiga e recente, para assim fortalecer seu povo. O suporte audiovisual permite, nesse sentido, uma difusão maior do resultado do trabalho e uma garantia de um tipo de registro permanente em um momento em que se observa a perda irreparável de acervos indígenas com o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro.

O povo Kaingang pertence ao tronco linguístico Macro-jê. Antigamente, era um povo caçador-recolhedor que habitava as florestas de araucárias. A partir do século XVII, os Kaingang passam a ser colonizados por várias frentes, principalmente militar e católica que, ao buscar assegurar seu controle sobre essa população, tentam confinar os Kaingang em espaços fechados que são chamados de aldeamentos (LIMA, 1995). Devido principalmente a uma forte prática guerreira de parte dos Kaingang que não se deixaram “aldear”, é somente a partir da metade do século XIX, com o aumento de colonos europeus na região sul do país e assim com um maior empenho de parte dos governantes que os aldeamentos se fortaleceram. A tarefa dos jesuítas tornou-se muito mais uma tarefa civilizatória do que evangelizadora. Já desde aquela época, os Kaingang começaram a ser obrigados a trabalhar nas lavouras.

Legenda: Resistência indígena em Guarapuava. Fonte: José de Miranda, século XVIII (retirado do ISA)

Esses diversos processos de territorialização (OLIVEIRA FILHO, 1998) foram acompanhados por uma série de imposições coloniais, cujos objetivos, notadamente a partir do nascimento do Serviço de Proteção aos Índios, eram a transformação dos indígenas em trabalhadores nacionais. Os impactos desses processos coloniais ainda hoje se sentem nas Terras Indígenas Kaingang. As Terras Indígenas que foram (re)demarcadas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) são oriundas desses primeiros aldeamentos que foram cada vez mais se tornando menores com a chegada de novas frentes de expansão do capitalismo.

Mulheres e crianças trabalhando no Posto Indígena Queimadas (PR), 1944. Fonte: Arquivos do Museu do Índio.

A partir da década de 1970, os Kaingang começaram a iniciar movimentos de retomadas das terras que lhes foram retiradas ao longo da história. Entre as Terras Indígenas retomadas na década de 1980, nos interessa abordar a retomada da T.I. Mangueirinha, no Paraná, desde a perspectiva da liderança político-espiritual (kujà) Iracema Gáten Nascimento, filha da liderança Alcindo Peni, que viajou desde Nonoai/RS até Mangueirinha com mais de 40 famílias de guerreiros Kaingang para apoiar ao, então, cacique da T.I. Mangueirinha Ângelo Kretã.

Mais recentemente, os Kaingang do Alto Uruguai têm iniciado processos de retomadas que desencadearam a formação de Acampamentos de Retomadas (ACR), que até hoje estão à espera da sua homologação por parte do Estado brasileiro. As condições de vida nos Acampamentos são mais difíceis, por um lado, não existindo tantas políticas de assistência como nas T.I demarcadas, e, por outro, eles têm que enfrentar cotidianamente à adversidade da convivência com os fazendeiros.

Muitas lideranças Kaingang acabaram, assim, sendo perseguidas e encarceradas. Porém, nos Acampamentos de Retomadas têm-se desenvolvido também formas outras, contra-hegemônicas, de viver e se relacionar com o território e com a política. As retomadas expressam um desejo de romper com as heranças do colonialismo na busca de um “retorno” ao tempo dos antigos vãsy (TOMMASINO, 1998) e, nelas, se elaboram novas formas de fazer política baseadas em saberes ancestrais em que os mundos espirituais e terrestres estão intimamente vinculados (MARÉCHAL, 2017).

JUSTIFICATIVA

Este projeto busca a elaboração de obras audiovisuais que retraçam a luta pela terra dos Kaingang. A partir da história de vida da liderança Alcindo Peni -que se opôs durante mais de 40 anos à venda de madeira ilegal e aos arrendamentos de terra pelos colonos da região, fomentada pelos funcionários dos órgãos estatais Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e Fundação Nacional do Índio (FUNAI) na Terra Indígena Nonoai- buscaremos retraçar a luta dos Kaingang de Nonoai e Mangueirinha que retomaram de forma autônoma suas terras. A retomada de Mangueirinha ficou gravada na memória de muitas pessoas, pois envolveu muitos Kaingang do sul do país, e a sociedade civil também se mobilizou muito a favor dos Kaingang. Foi sua filha, Iracema Nascimento que tomou a iniciativa de relatar a história do seu pai e que decidiu nos guiar sobre os passos da luta do seu pai. Articulando-se com essa história mais antiga, existem, no contexto atual vários Acampamentos de Retomada Kaingang no interior do Rio Grande do Sul. A partir de uma convivência com as comunidades Kaingang, queremos ouvir deles as narrações dessas lutas mais recentes. A ideia é conhecer com maior profundidade o Acampamento de Retomada Kanhgág Ag Goj (Rio dos Índios), situado em Vicente Dutra/RS, onde, em 2016, a comunidade, apoiada por outras comunidades da região, retomou 8 hectares de terra de forma autônoma e onde plantaram esse ano 40000 pés de araucárias, reafirmando, assim, seu desejo de romper com um sistema explorador e viver de acordo as suas formas e princípios de vida social.

Também, pretende-se tornar visível a vida e a luta pela da comunidade de Votouro/Kandóia, situada em Faxinalzinho/RS, onde a comunidade fica recluída em 2 hectares de terra e onde seguem sofrendo perseguição judicial, sendo envolvidos desde maio de 2014 em um processo que visa a criminalizar sua luta pela terra.

A realização dessas obras é necessária para dar visibilidade tanto à perseguição e criminalização da luta pela terra que os Kaingang vêm levando há décadas quanto aos horizontes decoloniais (MIGNOLO, 2007) que se inscrevem nesses processos recentes de retomadas. A luta pela terra Kaingang, nesse sentido, deve ser entendida para além das concepções eurocentradas do território. O território se apresenta, para os Kaingang, como um tecido de relações (ECHEVERRI, 2004) entre seres humanos, não humanos e extra-humanos, todos intimamente ligados à floresta. A destruição cada vez mais consequente da floresta tem desequilibrado profundamente essas relações inscritas no tecido social Kaingang. Hoje, um dos principais objetivos dos Kaingang nos Acampamentos de Retomada é o restabelecimento desse equilíbrio. Através deste trabalho, buscaremos mostrar como o território está vivo na memória dos Kaingang ao mesmo tempo em que evidenciaremos sua destruição material e física. Apresentaremos também as propostas que os Kaingang fazem para suas comunidades nos Acampamentos de Retomada e assim veremos porque essas retomadas se articulam com um profundo desejo de romper com o sistema de exploração do homem pelo homem e da natureza pelo homem.

Mapa da nossa viagem

Silmar de Paula preparando um remédio a base de “casca de anta”. Agosto de 2017, ACR Votouro/Kandóia. Foto de Clémentine Maréchal

OBJETIVOS

Geral:

Fortalecer a luta pela terra dos Kaingang no Alto Uruguai a partir da realização de duas obras audiovisuais que retracem os processos antigos e recentes de retomadas e as implicações e consequências que esses processos têm para sua comunidade e além dela.

Específicos:

Retraçar a história de vida e luta da liderança política Alcindo Peni Nascimento, sendo guiados por sua filha e liderança político-espiritual Iracema Gá Rã Nascimento;

Abordar as retomadas de terra Kaingang atuais entendendo-as como horizontes decoloniais de organização político-espiritual;

Visualizar o território Kaingang como um tecido de relação entre seres humanos, extra-humanos ligados à floresta e transmitir essa relação na realização dos vídeos;

Denunciar as perseguições políticas e o encarceramento das lideranças políticas Kaingang no Alto Uruguai.

Referências Bibliográficas:

ECHEVERRI, Juan Alvaro. Territorio como cuerpo y territorio como naturaleza: ¿diálogo intercultural?. In: SURRALLES Alexandre; HIERRO Pedro García (Eds). Tierra Adentro: Territorio Indígena y percepción del entorno. Copenhague: IWGIA (International Work Group for Indigenous Affairs), 2004, p. 259-276.

FERNANDES, Ricardo Cid. Política e Parentesco entre os Kaingang: uma Analise Etnológica. PPGAS/USP: São Paulo, 2003.

LIMA, Antônio Carlos de Souza. Um grande cerco de paz: poder tutelar, indianidade e formação de Estado no Brasil.  Vozes: Petrópolis, 1995.

MARÉCHAL, Clémentine. Sonhar, Curar, Lutar: Colonialidade, Xamanismo e Cosmopolítica Kaingang no Rio Grande do Sul. Editora Prismas: Curitiba, 2017. 240p.

MIGNOLO, Walter. La opción de-colonial: desprendimiento y abertura. Un manifiesto y un caso.  Tabula Rasa: Bogotá – Colombia, n°.8, enero-junio 2008. pp. 243-281.

OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. Uma etnologia dos « índios misturados »? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. Mana: Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, p. 47-77, 1998.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of world- system research, 11 (2), Riverside, 2000.

RAPPAPORT, Joanne. Más allá de la escritura: la epistemología de la etnografía en colaboración. Revista Colombiana de Antropología, v.47, enero-diciembre 2007, pp. 197-229.

TOMMASINO, Kimiye. Os Novos Acampamentos (Wãre) Kaingang na cidade de Londrina: Mudança e Persistência numa sociedade Jê. Rev. Mediações, Londrina, v.3, nº2, p.66-71, jul./dez. 1998.

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